às vezes um regresso (sinal de maturação)
Tu:
Sabes que te sinto quando já nem te sei? Sabes que a cidade se transformou num esquema diferente, como o mar passou a ter ondas novas, como as frutas me cresceram nas mãos? Não sabes...
Já não és o meu amor, não pela razão do teu amor ser outro, só porque tu já não és o meu. Só porque eu já não te vejo quando os olhos são fechados, não acordo em alvoroço, não fumo por um reflexo, só por um prazer. Eu já não gosto de ti, já nem sequer da tua imagem. Passaste a ter forma de novo, como antes, antes do amor. Passaste a a ser só um humano, só mais um mas todos são tão importantes. Só és um bocadinho menos.
Quando pensávamos saber de tudo e cheirar de tudo, sentir de tudo ao mesmo tempo, esqueciamos o ritmo das coisas simples. Eu já nem sei o que isso é, podia dizer. Mas sei, acreditas? Alguém acredita? Voltei ao que nunca tive, à pequenez de um dia curto ou à chuva quando faz calor. Aos pés molhados ao relento, e isso não dói nem sequer trás frio. À autoestrada a cortar a Natureza e até isso pode ser bonito.
Para isto. Basta um pequeno pormenor. Pequeno, fácil, insignificante, concretizável: eu não te posso ver. Eu não posso saber que número de calças vestes só pela arma da visão, não posso saber o que comes ou o que bebes, não posso saber em que sala tu ficas quando descansas. Não posso saber do que ris ou como brilhas. Quais são os teus projectos de iluminação de espaços, quais são as pedras que queres apanhar do chão para me atirar, os murros e os silêncios nas ruas à noite. Mas afinal já nem atiras nada, não precisas, tens finalmente quem o faça por ti, é tão mais fácil ser a pedra mas não ser a mão. Como é mais fácil dar as feridas nos braços e nas costas, deixar marcas físicas em vez de deixar memórias. Porque a memória é um lugar onde se volta sempre.
Tu. Por ti prometi que não daria mais nada, nem sequer um olhar de longe ou um carinho de cumplicidade perdida. Conseguiste o que sempre julguei impossível, que olhasse o Homem com desilusão ou sem vontade. Que não parasse nas passadeiras nem desse de comer aos mendigos. Que não falasse de sentimentos puros, que não chorasse porque o tempo se esgota e há sempre coisas mais importantes para se fazer. Que deixasse de acreditar num deus, nem sequer isso, só deixar de lhe falar porque há sem dúvida coisas mais importantes para se fazer.
Ah, mas afinal um deus tem que existir, uma força tem de haver, não sei se nasce das pedras ou dos montes, se do ar ou da autoestrada. Se soubesses o prazer que me nasceu por parar nas passadeiras, por dar de comer ou dar de conversar, se visses como é bom sair de casa e conhecer pessoas na rua, de novo, à noite ou de dia. Como é bom tantos saberem quem sou, saberem mesmo sem mentiras, e ainda assim me amarem sem condições. Como é bom amar sem condições, gostar de cada um que passa só pela sua condição de transeunte. Ser menos, sendo mais.
Como é bom já não gostar de ti. Ou nem saber de ti.




