a arquitectura da marcenaria
[à Inês e ao Tomás]
Foi o meu pai que me ensinou.
Não acredito. Não podes. Ninguém neste século o sabe, já ninguém se lembra.
Eu prometo.
Como podes?, ouvia ele em som metálico. Diziam-lhe que a madeira tinha morrido há tanto tempo, que a relva já não nascia pela simples mão de um homem com vontade. Mas eu prometo. Lembrava-se de tudo, lembra-se sempre até morrer. Por vezes diz até que se lembra de nascer, do cheiro a madeira e verde que lhe chegou dentro, naquela primeira hora. Naquela primeira hora.
O tempo foi crescendo e foi ouvindo mais, foram-lhe dizendo que não, que não era tudo assim, que os prédios se faziam do cimento, que as horas se contavam em conversões. Nunca se sentiu sozinho, sempre soube que havia casa.
a Casa:
Tubos de madeira a fazerem circular as paredes, um jardim ao meio, o cheiro a Japão e a serradura a flutuar lentamente pelo ar. Como se a calma houvesse sempre e um país não fosse sozinho. Como se o amor fosse líquido e saísse pelas mãos dos pais, em raios verdes de brandura. E a música sempre ao fundo, numa roda que gira e sobre a qual ele dançava.
Mas não, meu amigo de escola. Garanto-te que já ninguém trabalha em madeira, que o negócio de pensar ficou para trás, que não podes ser filho único de uma geração perdida.
Foi a minha mãe que me ensinou. Sabia a sua mãe como a mulher mais bonita da galáxia, o seu pai com as mãos mais suaves e fortes. O seu rosto como mistura perfeita das artes serenas.
Meu filho.
O meu filho.
O rapaz sabe olhar a lua todos os dias. Lembra-se de ouvir a mãe falar sobre o tempo em que esta chegava com a noite, lembra-se do brilho dos seus olhos rasgados quando dizia que nas noites quentes esta vinha maior, numa cor a que o homem não punha nome. Lembra-se do cabelo desalinhado do pai quando consigo se sentava à janela a ouvir o tempo.
E o rapaz afirma com coragem:
Acredita tu agora, meu amigo. A madeira ainda existe. Tocar-lhe com cuidado é como trazer ao mundo a paz. E os jardins, esses podem ser feitos com muita calma.
Uma casa pode ter cheiro de vida. E essa é a alternativa escondida que existe. Ao cimento, às horas, à verdade, ao medo e à fuga. Quem me ensinou foi o meu pai. Quem eu senti foi a minha mãe.
Foi o meu pai que me ensinou.
Não acredito. Não podes. Ninguém neste século o sabe, já ninguém se lembra.
Eu prometo.
Como podes?, ouvia ele em som metálico. Diziam-lhe que a madeira tinha morrido há tanto tempo, que a relva já não nascia pela simples mão de um homem com vontade. Mas eu prometo. Lembrava-se de tudo, lembra-se sempre até morrer. Por vezes diz até que se lembra de nascer, do cheiro a madeira e verde que lhe chegou dentro, naquela primeira hora. Naquela primeira hora.
O tempo foi crescendo e foi ouvindo mais, foram-lhe dizendo que não, que não era tudo assim, que os prédios se faziam do cimento, que as horas se contavam em conversões. Nunca se sentiu sozinho, sempre soube que havia casa.
a Casa:
Tubos de madeira a fazerem circular as paredes, um jardim ao meio, o cheiro a Japão e a serradura a flutuar lentamente pelo ar. Como se a calma houvesse sempre e um país não fosse sozinho. Como se o amor fosse líquido e saísse pelas mãos dos pais, em raios verdes de brandura. E a música sempre ao fundo, numa roda que gira e sobre a qual ele dançava.
Mas não, meu amigo de escola. Garanto-te que já ninguém trabalha em madeira, que o negócio de pensar ficou para trás, que não podes ser filho único de uma geração perdida.
Foi a minha mãe que me ensinou. Sabia a sua mãe como a mulher mais bonita da galáxia, o seu pai com as mãos mais suaves e fortes. O seu rosto como mistura perfeita das artes serenas.
Meu filho.
O meu filho.
O rapaz sabe olhar a lua todos os dias. Lembra-se de ouvir a mãe falar sobre o tempo em que esta chegava com a noite, lembra-se do brilho dos seus olhos rasgados quando dizia que nas noites quentes esta vinha maior, numa cor a que o homem não punha nome. Lembra-se do cabelo desalinhado do pai quando consigo se sentava à janela a ouvir o tempo.
E o rapaz afirma com coragem:
Acredita tu agora, meu amigo. A madeira ainda existe. Tocar-lhe com cuidado é como trazer ao mundo a paz. E os jardins, esses podem ser feitos com muita calma.
Uma casa pode ter cheiro de vida. E essa é a alternativa escondida que existe. Ao cimento, às horas, à verdade, ao medo e à fuga. Quem me ensinou foi o meu pai. Quem eu senti foi a minha mãe.

4 Comments:
Boa miúda!
Bem bonito. Ainda mais dadas as circunstâncias.
Bonito texto.
Abraços,
Silvia
Beijos. Thanks. Tava boa a janta ontem.
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