O Lugar Pintado
E pronto.
E a dança na rua, com um pé no alto e outro depois, com uma escorregadela aqui e outra ali, com reflexos por baixo, na água da chuva que já não vem, no gelo que se fez flores e folhas e cadernos espalhados.
De olhos no alto, para o alto, como num drive in a fixar um épico. Vai correr tudo tão bem. De braços extremos a rolarem os prédios, de mãos de raparigas inocentes a cruzarem o cérebro. Com a roupa no lugar, espalhada pela cidade e deixada pelos campos. Será que alguém já reparou que o melro é o único pássaro que canta à meia noite, da mesma maneira que os pardais cantam às 6:58 da manhã? São as novas imitações perfeitas.
E as imagens que se fixam nas paredes, nos vidros, nos retrovisores, nos anúncios, nas mãos que acenam. Todos trazem os baldes de tinta debaixo do braço, arrumam-no ainda de noite à porta de casa, junto ao casaco. Para no dia seguinte, no intervalo de almoço, darem por cumpridas as suas tarefas. Atiram as cores para todos os lados, deixam-nas escorregar com tempo, em todos os lugares e em todos os cantos. Sentam-se com carinho nos bancos espalhados pela cidade e olham. Cada um por si, cada um no tempo permitido pelo Estado. Como eu amo esta cidade.
E as harpas correm os dedos, mais longe que os dedos alguma vez conseguiram chegar. Os loucos seguem os dias, os outros esperam compromissos. O céu torna-se verde, não, vermelho, não, verde, não, castanho. Castanho, como a música. Castanho como os choques, castanho como o mar, castanho como todas as camisolas que dão força. Castanho como todos os que foram ou esperaram.
Gostava de ter pelo menos um amigo que gostasse de papas de milho. Gostava de conhecer alguém que tivesse visto as árvores que nascem no Lago Niassa. E o queixo volta a apontar para cima, como nas grandes esperanças, como num dia em grande, como na vontade de fazer tudo de novo, melhor.
Eu podia jurar que vi folhas a voar. Mas eu nunca juro, só prometo.
E
mais
um dia
na cidade
dos que
nunca
nada.
E a dança na rua, com um pé no alto e outro depois, com uma escorregadela aqui e outra ali, com reflexos por baixo, na água da chuva que já não vem, no gelo que se fez flores e folhas e cadernos espalhados.
De olhos no alto, para o alto, como num drive in a fixar um épico. Vai correr tudo tão bem. De braços extremos a rolarem os prédios, de mãos de raparigas inocentes a cruzarem o cérebro. Com a roupa no lugar, espalhada pela cidade e deixada pelos campos. Será que alguém já reparou que o melro é o único pássaro que canta à meia noite, da mesma maneira que os pardais cantam às 6:58 da manhã? São as novas imitações perfeitas.
E as imagens que se fixam nas paredes, nos vidros, nos retrovisores, nos anúncios, nas mãos que acenam. Todos trazem os baldes de tinta debaixo do braço, arrumam-no ainda de noite à porta de casa, junto ao casaco. Para no dia seguinte, no intervalo de almoço, darem por cumpridas as suas tarefas. Atiram as cores para todos os lados, deixam-nas escorregar com tempo, em todos os lugares e em todos os cantos. Sentam-se com carinho nos bancos espalhados pela cidade e olham. Cada um por si, cada um no tempo permitido pelo Estado. Como eu amo esta cidade.
E as harpas correm os dedos, mais longe que os dedos alguma vez conseguiram chegar. Os loucos seguem os dias, os outros esperam compromissos. O céu torna-se verde, não, vermelho, não, verde, não, castanho. Castanho, como a música. Castanho como os choques, castanho como o mar, castanho como todas as camisolas que dão força. Castanho como todos os que foram ou esperaram.
Gostava de ter pelo menos um amigo que gostasse de papas de milho. Gostava de conhecer alguém que tivesse visto as árvores que nascem no Lago Niassa. E o queixo volta a apontar para cima, como nas grandes esperanças, como num dia em grande, como na vontade de fazer tudo de novo, melhor.
Eu podia jurar que vi folhas a voar. Mas eu nunca juro, só prometo.
E
mais
um dia
na cidade
dos que
nunca
nada.

1 Comments:
Os textos têm estado muito bonitos.
Beijos
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